Cuidados com o “Membro Residual” ou “Coto de Amputação” – Parte 1

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Antigamente quando se referia àquela parte da prótese ortopédica onde os pacientes encaixam a parte do membro que restou após a amputação, dizia-se o “soquete” (do inglês “socket”) ou até, como diziam alguns técnicos ortopédicos, o “caneco”.  Eu fui da geração que começou a usar o termo “encaixe”. Hoje, o nome que está mudando, é o do chamado “coto de amputação”. Por achar esse termo estigmatizante para os pacientes, hoje prefere-se referir a esse apêndice como “Membro Residual”, que nós procuramos usar sempre que lembramos.

Afinal, são mais de cinquenta anos lendo, falando e ouvindo “coto de amputação”, mas espero que com a repetição eu consiga automatizar o termo “membro residual”, quando falo em amputados, amputações e/ou próteses ortopédicas.

Mas vamos ao que interessa. A amputação é uma cirurgia traumática, com grande perda de sangue, de partes moles e ósseas e com repercussão na imagem corporal dos pacientes. Termina com uma cicatriz que mesmo em pessoas de pouco volume corporal ocupa parte considerável da extremidade do membro residual. Uma cicatriz como essa necessita cuidados.

Cuidados e Higiene do membro residual

Deve-se manter drenagem a vácuo na cavidade, desde o ato cirúrgico, enquanto houver líquidos saindo pelo dreno. Quando a amputação decorre de acidentes necessita cuidados porque pode guardar germes nos tecidos restantes. Quando decorre de doenças que cursam com obstruções de vasos sanguíneos, de grande ou de pequeno calibre, faz pressupor dificuldades no aporte de sangue arterial, portanto com poucas células de defesa atingindo a cicatriz.

Diante dessas perspectivas, somos obrigados, desde antes da cirurgia, a higienizar muito bem os tecidos do membro residual e acompanhar diariamente a evolução da cicatriz. Se observarmos que a pele está avermelhada, com bolhas ou feridas além daquela causada pela cirurgia, temos que fazer uma compressão leve a moderada da extremidade. Se sair pús ou secreção com mau odor junto a sangue, é necessário colher material para uma cultura e antibiograma, e em seguida já iniciar medicação com antibióticos de largo espectro, até que saibamos qual o microorganismo a ser combatido e podermos substituir os medicamentos por aqueles mais eficazes, segundo o antibiograma.

Desde o pós operatório imediato, é fundamental combater a dor no coto. Não é frequente, no pós operatório imediato, o paciente apresentar a “dor no membro fantasma”, mas dor no membro residual, em consequência do manuseio dos tecidos durante a cirurgia, é bastante comum e tem que ser tratada com analgésicos e cuidados no manuseio do paciente.

Mesmo após a retirada do dreno, deve-se proceder à lavagem diária do membro, com sabão antisséptico e soro morno, enxugando sem esfregar. O uso das ataduras elásticas deve ser iniciado após a retirada das últimas suturas e o tempo de enfaixamento deve ser aumentado gradativamente, sempre intercalado com períodos sem as ataduras. As ataduras devem ser aplicadas de modo a fazer uma compressão tolerável pelo paciente, no sentido de distal para proximal, favorecendo a circulação de retorno venoso e assim reduzindo gradativamente o edema para modelar o coto para a futura confecção do encaixe protético.

Imediatamente após a amputação, tanto o médico reabilitador quanto o paciente podem começar a tomar medidas para que a mobilidade futura seja o mais funcional possível. Os principais objetivos da fase pós-operatória imediata incluem:

  • Evitar contraturas musculares
  • Reduzir e controlar o edema
  • Cuidados residuais com os membros
  • Fortalecimento geral e mobilização muscular

Atingir cada um desses objetivos ajudará o paciente a se preparar para usar com sucesso uma prótese no futuro.

Prevenção de Deformidades

Deve-se evitar a colocação de almofadas embaixo dos cotos. Esse tipo de elevação não só não ajuda praticamente nada no combate ao edema como mantém certos músculos encurtados podendo causar desvios que quanto mais tempo forem mantidos mais tempo demorarão a ser corrigidos, atrasando o tempo para a dispensação de uma prótese. Também deve-se evitar longas permanências sentado.

Nas amputações transfemorais, manter o membro amputado abduzido por muito tempo poderá levar ao encurtamento dos abdutores do quadril (Glúteo Médio, Glúteo Mínimo e Piriforme). Já se o membro for mantido flexionado, fará encurtar os músculos flexores dos quadris (Psoas maior e Ilíaco). Já nas transtibiais, o sentar com os joelhos em flexão contribuirá para encurtar os músculos flexores dos joelhos (Bíceps crural, semitendinoso, semimembranoso, sartório e grácil). É importante lembrar que no amputado unilateral, ambos os membros inferiores podem ter esses músculos encurtados, aumentando o tempo para conclusão da Fase Pré-Protética da Reabilitação.

Exercícios de Alongamento: Além do posicionamento correto, é importante que se realize, assim que a evolução pós-operatória permitir, exercícios de alongamento e de fortalecimento isométrico conforme orientado pela Equipe de Reabilitação, para manter a força, a amplitude de movimento e reduzir o risco de desvios do membro residual.

Mudança de Decúbito: É importante mudar frequentemente de posição para evitar a pressão prolongada em qualquer parte do membro residual. Isso ajuda a prevenir úlceras de pressão e outros problemas de pele principalmente nos pacientes com neuropatia.

Uso de Encaixes Flexíveis de Silicone (“Liners”): Esse tipo de meias específicas para cotos, servem para ajudar a controlar o edema e proteger a pele. Tal como o enfaixamento elástico, elas também ajudam a preparar o coto para a prótese, mantendo a forma e o volume adequados.

👉EDIT: Segunda parte do artigo disponível aqui.



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