Continuação do artigo “Cuidados com o “Membro Residual” ou “Coto de Amputação” – Parte 1″
Sensibilidade no Membro Residual
Após uma amputação, é comum que o coto apresente sensibilidade. Mesmo nos pacientes com neuropatia, a sensibilidade no membro residual pode variar de um simples incômodo a dores mais intensas, interferindo no processo de reabilitação e no uso da prótese. Para cada causa de incômodo existe um meio de tratamento, que é essencial para garantir mais conforto e qualidade de vida.
Além da doença, do tipo de acidente ou do manuseio dos tecidos durante a cirurgia de amputação, existem diversos fatores que podem causar dor no membro residual:
- Cicatrização da pele: nos primeiros dias após a cirurgia a extremidade ainda está em processo de recuperação, tornando-se mais frágil ao toque.
- Alterações nervosas: o processo de cicatrização dos nervos que foram seccionados durante a cirurgia pode gerar sensações de formigamento, agulhadas, choques ou a dor fantasma.
- Atrito ou pressão da prótese: quando a prótese não está bem ajustada ou o liner não é adequado, o paciente pode sofrer irritação por compressão excessiva ou ferimentos por atrito dos tecidos moles do membro residual contra as bordas do encaixe da prótese. Uma das causas do mau ajuste do encaixe é a demora na confecção da prótese após a tomada das medidas do membro residual. Enquanto espera pela prótese o peso do paciente pode variar, em geral aumentando, e com o aumento do peso aumenta o volume do membro residual.
- Problemas circulatórios ou de pele: edema, ressecamento ou infecções também contribuem para o aumento da sensibilidade e até para lesões mais sérias por restrições ao fluxo sanguíneo no membro residual.
Cuidados a serem tomados pelo paciente no dia a dia
Algumas medidas simples podem ajudar a aliviar o desconforto:
- Hidratação da pele do membro residual: com creme hidratante e consumo regular de água.
- Massagem no membro residual: massagens leves, com movimentos circulares desde a extremidade do membro amputado para a articulação proximal, ajudam a liberar os tecidos cicatriciais, dessensibilizar a pele e melhorar a circulação, reduzindo edema e aliviando as dores.
- Uso de liners adequados: escolher um liner de silicone de boa qualidade e na medida correta reduz o atrito e protege a pele.
- Enfaixamento ou meias compressivas: recomendados pelos profissionais de saúde, auxiliam no controle do edema, modelando o membro residual para a adaptação ao encaixe da prótese.
A sensibilidade no coto é uma etapa comum do processo de reabilitação, mas não precisa ser um obstáculo. Com os cuidados certos e acompanhamento profissional, é possível reduzir o desconforto e aproveitar ao máximo os benefícios do uso de uma prótese.
Enfaixamento elástico X Liner de Silicone
O trabalho de modelagem do membro residual, com vistas à futura protetização, deve ser iniciado tão logo sejam retiradas as últimas suturas da ferida operatória. A compressão deve sempre ser feita da extremidade do membro amputado na direção da articulação proximal, com uma compressão tolerável pelo paciente. O paciente deve ir alternando os tempos de compressão com períodos sem o liner ou o enfaixamento elástico, de modo que o período enfaixado vá crescendo. Além de reduzir o edema, melhorando a circulação de retorno, a compressão vai dessensibilizando o membro residual e preparando-o para a compressão que ocorrerá pelo encaixe da futura prótese. O paciente não deve, nunca, deitar para descansar com o membro enfaixado pois se dormir mantendo uma postura prolongada com compressão de veias poderá sofrer uma trombose venosa.
A vantagem do uso do liner é a facilidade para colocá-lo e a uniformidade da compressão com melhores resultados na circulação e na redução de edema.



Cuidados com a Saúde em Geral – Comorbidades
Embora haja, no Brasil, muitos pacientes amputados traumáticos, a maioria composta por usuários de motocicletas, a grande maioria dos pacientes que vêm ao IMREA – Instituto de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, onde iniciamos a Equipe de Reabilitação de Amputados em 1996, são doentes com doenças vasculares (Arteriosclerose e Tromboangeíte obliterante) ou com Diabetes. Segundo dados internacionais da OMS a maior parte das amputações no mundo são causadas por neuropatia ou microangiopatia diabéticas, em geral com início nos pés insensíveis, conhecidos como Pés Diabéticos. Os dados do SUS, no Brasil, corroboram os números da OMS.
Muitas pessoas com diabetes desenvolvem problemas nos pés devido a danos nos nervos e má circulação sanguínea. Isso pode causar úlceras nos pés e levar à amputação. A incidência anual global de amputações relacionadas ao diabetes no período de 2010 a 2020, demonstrou que a incidência de amputações menores (pé e tornozelo) foi estimada em 139,97 para 100.000 diabéticos, enquanto que a incidência de amputações maiores (acima dos tornozelos) foi estimada em 94,82 casos por 100.000 diabéticos.
As amputações em diabéticos continuam sendo uma das consequências mais indesejáveis devido ao mau controle da doença. As amputações de membros inferiores relacionadas ao diabetes são extremamente penosas, são fatores de risco independentes para mortalidade prematura e frequentemente resultam em reamputação após a primeira amputação de membro inferior. No entanto, o risco pode ser muito diminuído melhorando os cuidados e promovendo hábitos saudáveis nesses pacientes.
Também são importantes a identificação e o tratamento de Hipertensão Arterial, Hiperlipemia, Indícios de Depressão ou de Ansiedade entre outras comorbidades, muitas vezes só identificadas no ambiente hospitalar, após uma amputação.
Movimentação com Segurança
Não apoiar o coto: nos primeiros dias após a amputação, o paciente não deve usar o coto para se empurrar na cama ou apoiar o peso dele em superfícies.
Exercícios leves: apenas movimentos indicados pelos profissionais de saúde do hospital, como mexer o membro não amputado ou realizar contração isométrica leve dos músculos dos membros, abdome, regiões glútea e assoalho pélvico, para ativar a circulação sem que causem dor na linha de sutura.
Preparação do Ambiente
Sempre que houver necessidade de movimentar o paciente recém amputado, alguns cuidados devem ser respeitados para evitar causar malefícios tanto físicos quanto emocionais ao indivíduo, que está fragilizado pela perda do membro e incerto quanto ao futuro.
Para Sentar na Cama
O paciente deve rolar de lado, sobre o lado contrário ao do membro amputado e usar os braços para empurrar o tronco para cima. Simultaneamente, ele deverá balançar a perna não operada para fora da cama até tocar o chão.
Cuidado com o membro amputado: o cuidador deve apenas apoiar e guiar o membro residual com as mãos espalmadas, garantindo que ele não bata na lateral da cama ou balance bruscamente.
Lembrar de deixar o paciente sentado na beira da cama por 1 a 2 minutos para garantir que ele não terá tontura por hipotensão postural.
Deve-se posicionar a cadeira de rodas paralela ou ligeiramente diagonal à cama (ângulo de 45 graus) e travar as duas rodas da cadeira. Remover ou rebater os apoios de pé e de braço do lado voltado para a cama, para liberar o acesso do paciente ao assento da cadeira.
A Transferência (Movimento de Pivô)
O cuidador deve se posicionar bem em frente ao paciente, com os joelhos levemente dobrados e as costas eretas para evitar lesões.
O paciente deve pôr as mãos no colchão ou nos ombros do cuidador, nunca no pescoço. O cuidador segura firmemente a cintura do paciente ou o cós da calça ou do cinto, para auxiliar na transferência.
O cuidador deve contar em voz alta até três, quando então paciente deverá se inclinar para frente, olhando para cima, e fazer força com a perna não operada e com os braços para levantar o quadril da cama.
Já em pé o paciente gira o corpo sobre o pé saudável, ficando de costas para a cadeira de rodas. O coto deve ficar livre no ar, sem encostar em nada. O paciente então procura o braço da cadeira de rodas com as mãos e desce o quadril devagar, até sentar.


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