Diabetes Mellitus Tipo I, esportes e prevenção de complicações

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Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)

O Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1) é uma doença autoimune crônica caracterizada pela destruição das células beta das ilhotas pancreáticas, responsáveis pela produção de insulina. Como consequência, ocorre deficiência absoluta de insulina, tornando necessária sua reposição por toda a vida.

A insulina é essencial para que a glicose entre nas células e seja utilizada como fonte de energia. Sem ela, a glicose se acumula no sangue (hiperglicemia).

Representa cerca de 5-10% de todos os casos de diabetes.

A causa exata não é totalmente conhecida, mas resulta da interação entre fatores genéticos e ambientais.

Em termos de fatores genéticos,ter parentes de primeiro grau (pais e irmãos) com DM1 aumenta significativamente o risco.

Já quanto aos fatores ambientais, alguns fatores podem ser considerados possíveis desencadeantes, como Infecções virais (enterovírus, coxsackie B, rubéola congênita), Alterações da microbiota intestinal , Fatores dietéticos precoces, Deficiência de vitamina D e outros fatores imunológicos ainda não confirmados.

Estudos da International Diabetes Federation, organização sem fins lucrativos que representa a comunidade global do diabetes, estimam que existam mais de 9 milhões de pessoas vivendo com DM1 no mundo.

Embora seja tradicionalmente considerada uma doença da infância e adolescência, o pico de diagnóstico costuma acontecer entre 10 e 14 anos, mas a doença pode ser diagnosticada em qualquer idade. Cerca de metade dos casos é diagnosticada após os 18 anos. O Brasil está entre os países com maior número absoluto de indivíduos com DM1, com diagnóstico de aproximadamente 10-15 casos para 100.000 habitantes/ano, estimando-se centenas de milhares de pacientes em acompanhamento.

Como a doença ocorre no organismo do paciente

O indivíduo nasce geneticamente suscetível. Ainda na infância, um fator externo ativa o sistema imunológico e o organismo passa a produzir anticorpos (linfófitos T), que são células de defesa contra agentes agressivos (causadores de doenças) que passam a atacar as células beta do pâncreas, produtoras de insulina, iniciando sua destruição progressiva. Quando aproximadamente 80-90% das células beta foram destruídas, surgem os sintomas clínicos. Os sintomas clássicos (4 “P”) são: poliúria (urinar muito), polidipsia (muita sede), polifagia (muita fome) e perda de peso, secundados por outras manifestações, menos específicas, como fadiga, visão borrada, irritabilidade, fraqueza muscular, redução do rendimento escolar e desidratação. Crianças pré-escolares podem voltar a urinar na cama e/ou sofrer atraso no crescimento.

Ao se deparar com jovens apresentando os 4P e um ou outro dos sintomas menos específicos, recomenda-se proceder a exames que são utilizados para o diagnóstico de Diabetes Mellitus, tais como: Glicemia de jejum (Se maior ou igual a 126 mg/dL indica que o paciente deve ser melhor avaliado), Hemoglobina Glicada (HbA1c) maior ou igual a 6,5% (média dos níveis de glicose no sangue nos últimos 2 a 3 meses), Glicemia medida em qualquer hora do dia maior ou igual a 200 mg/dL acompanhada de sintomas e o Teste Oral de Tolerância à Glicose (Curva Glicêmica) com 200 mg/dL após 2 horas. Para confirmação da DM1 (Diabetes mellitus tipo I), podem ser ainda avaliados a Dosagem do Peptídeo C (nesses casos com taxas baixas) e a Pesquisa de Anticorpos Pancreáticos (Sempre positivos na DM1).

O tratamento se baseia essencialmente na aplicação de insulina, obrigatória em todos os pacientes. Existem diferentes modos de veicular a insulina a esses pacientes, utilizados pelos endocrinologistas. Outras modalidades terapêuticas são essenciais para o adequado controle da DM1, como a monitorização da glicemia (taxa de glicose no sangue), o controle da alimentação e a prática de exercícios.

Exercício físico

Nos diabéticos em geral a prática de exercícios, especialmente aeróbios, costumam trazer benefícios, como a melhora da sensibilidade à insulina, redução dos riscos ao sistema cardiovascular, a melhora da composição corporal e, na maioria dos casos, bem-estar psicológico. Para que os diabéticos ativos obtenham essas vantagens, é importante que procurem sempre ajustar as doses de insulina e a ingestão de carboidratos, além de relizarem a monitorização glicêmica antes, durante e após o exercício.

Porém, nem tudo são flores para esses atletas dealto nível com DM1. Há riscos potenciais importantes na prática de atividades repetitivas, como sobrecarga às cabeças metatársicas, formação de hiperqueratoses e calosidades e até de úlceras devido aos microtraumas repetitivos.Esse aspecto é particularmente importante em atletas com DM1, como o tenista Alexander Zverev.

Do ponto de vista biomecânico os movimentos repetitivos dos tenistas, às vezes durante quatro, cinco ou mais horas de jogo, com temperatura ambiente elevada, particularmente no piso das chamadas “quadras duras”, podem trazer aos atletas sobrecarga medial ou lateral dos antepés, altos picos de pressão durante frenagens e grandes cargas laterais durante os rápidos deslocamentos. Se imaginarmos essas ações em atletas diabéticos, que já podem ter redução da sensibilidade tátil e/ou vibratória e alteração da propriocepção (sensação da posição dos segmentos corporais no espaço), eles podem apresentar bolhas, escaras e até ulcerações plantares que podem inviabilizar a continuação em um jogo e às vezes levar à perda de vários torneios. Sabendo que deixar de comparecer a alguns torneios pode causar perdas de pontos na classificação, um atleta pode cair muitas posições no ranking internacional por causa dessas lesões. Por isso a importância dos cuidados em atletas, que os diabéticos não desportistas costumam negligenciar, às vezes com consequências muito além de bolhas nos pés, como a que levou Yehon Chung a desistir de uma partida contra Roger Federer em 2018. Em diabéticos já com diminuição da sensibilidade plantar, essas lesões podem ter consequências desastrosas, como as amputações de membros.

POR GUSTAVO LOIO – 26/01/2018 12:05

Chung exibe a bolha no pé após desistir contra Federer
A bolha no pé esquerdo de Chung

Maior surpresa deste início de temporada no tênis masculino, Hyeon Chung não resistiu a uma enorme bolha no pé esquerdo e desistiu no segundo set contra Roger Federer, na semifinal do Aberto da Austrália.

Na pratica de Corrida, seja em esteiras rolantes, pistas ou na rua, costuma-se verificar picos de pressão elevados no 2º e 3º metatarsianos, sobrecarga do hálux durante a propulsão e em muitos desportistas, amadores e também profissionais, assimetrias de passada. Já na prática de caminhadas com passos rápidos, encontra-se com maior frequência aumentos moderados das pressões do antepé e maior tempo de apoio.

No futebol, são frequentes as sobrecargas na borda lateral do pé, picos de pressão elevados sob a cabeça do 5º metatarso e assimetrias, em geral no membro do lado dominante.

Para evitar as consequências desses desvios, quer em praticantes de esportes que tenham diabetes, do tipo 1 ou do tipo 2, ou nos diabéticos não desportistas, mas que já estejam apresentando distúrbios da sensibilidade plantar e desvios mediais ou laterais dos pés, com ou sem calosidades plantares, deve-se ter cuidados como o controle dos níveis de glicose no sangue, tanto medicamentosos quanto mediante dieta adequada e procurar evitar a incidência de pressões em pontos localizados dos pés como nos calcanhares e nas cabeças dos 1º e 5º metatarsianos, nos indivíduos com pés cavos ou com pisada neutra, e na 3ª cabeça metatársica, quando o arco transversal do antepé já está cedendo, levando os dedos à posição “em garra”, com elevação das falanges das bases dos dedos e flexão das falanges médias ou das pontas dos dedos dos pés. Para evitar pressões plantares localizadas a solução ideal é redistribuir as pressões e dar suporte aos pés para corrigir os desvios.

Dedos em Garra devido à retificação do arco transversal do antepé, formado pelas cabeças metatársicas.

A melhor maneira de se proteger das consequências dos desvios nos pés e de redistribuir as pressões plantares, é através de uma boa avaliação física e do rastreamento precoce pelo teste de sensibilidade com monofilamentos de nylon complementados pela podobarometria dinâmica computadorizada, caminhando no plano ou correndo em esteira rolante, em pista ou na rua.

A avaliação pela podobarometria, com sensores inseridos dentro dos sapatos, tênis e chuteiras, permite-nos detectar sobrecargas antes de aparecer a úlcera, alterações na marcha, no salto ou na corrida, além de instabilidades posturais.

Ela nos dá condições de selecionar, com precisão, as melhores adaptações de  calçados, comoaqueles comsolado rígido, solado semiflexível, solado com rocker (elevações estratégicas do solado) de forma a reduzir as pressões que possam estar incidindo nos calcanhares, cabeças metatársicas e dedos. Também permite a indicação de calçados terapêuticos para quem já tem distúrbios nos pés.

A podobarometria também auxilia na prescrição de palmilhas personalizadas (costumo sempre lembrar aos meus residentes e pacientes que “não existem doenças… existem doentes”), principalmente com descarga metatarsal, botões e cunhas retrocapitais (atrás das cabeças dos metatarsianos), além de elementos de realinhamento dos desvios, de distribuição de carga e suportes personalizados para os arcos longitudinal medial e transversal de antepé.

Para praticantes de caminhada, corredores, futebolistas de campo e de salão e para tenistas com diabetes, uma estratégia muito útil é comparar sensibilidade plantar, com monofilamento e diapasão, podobarometria dinâmica computadorizada, desgastes dos calçados e presença de hiperqueratoses ou calosidades nos pés.

A correlação desses quatro elementos frequentemente revela padrões de sobrecarga que não aparecem no exame clínico isolado e permitem prescrever exercícios corretivos, palmilhas e calçados para evitar complicações.

E falando de tenistas e de diabetes mellitus tipo 1, Alexander Zverev está classificado para a final de Roland Garros 2026. Pelo visto, os cuidados descritos nesta postagem, quando bem utilizados, funcionam. Agora, é torcer para a vitória na final, conquistando seu primeiro título em torneios do Grand Slam.



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